Imaginação, inovação e tecnologia a serviço do patrimônio
- Didier Bergame

- 10 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Na I-PAL, acreditamos que a interpretação do patrimônio é, antes de tudo, um ato de conexão humana. Por isso, a cada ano escolhemos um tema que nos permita avançar como rede profissional, refletir sobre nossas práticas e abrir novos caminhos.
Para 2026, selecionamos um tema que expressa os desafios e as possibilidades do nosso tempo: Imaginação, inovação e tecnologia a serviço do patrimônio.

Longe de ser uma tendência passageira, esse enfoque resulta de uma reflexão profunda sobre como pensamos, projetamos e conduzimos experiências interpretativas na América Latina e no Caribe. Permitam-me explicar por que cada um desses três eixos é fundamental.
1. Imaginação: a base da criatividade e da multissensorialidade
Na interpretação, costumamos falar de criatividade e de experiências multissensoriais como se fossem elementos distintos, mas ambas nascem do mesmo lugar: a imaginação.
A imaginação não é uma ideia abstrata; é uma capacidade cognitiva central. Imaginar significa simular mentalmente experiências, sensações e relações antes mesmo de elas existirem no mundo real.
A imaginação nos permite:
Criar mundos possíveis antes de desenvolver uma experiência.
Antecipar quais sentidos ativar e como combinar sons, texturas, aromas e imagens para despertar emoções e memórias nos visitantes.
Transformar informações complexas em estímulos sensoriais acessíveis e significativos.
Dar forma criativa ao que ainda não existe: um percurso, uma metáfora, uma atmosfera, uma encenação.
Sem imaginação, a criatividade se torna técnica, e a multissensorialidade se reduz a uma sequência de efeitos. Com imaginação, ambos se tornam veículos de sentido, capazes de conectar as pessoas aos valores profundos do patrimônio.
A imaginação não é um complemento. É a nossa primeira infraestrutura interpretativa
2. Inovação: transformar processos, formatos e relações
Na I-PAL, entendemos a inovação como uma prática cultural, não como um artifício tecnológico. Inovar significa revisitar nossas formas de trabalhar e abrir espaço para novas lógicas interpretativas.
Isso se expressa em:
Experimentar formatos participativos mais dialógicos, sensíveis aos contextos locais.
Repensar a relação entre intérpretes, comunidades e visitantes, entendendo a interpretação como um espaço compartilhado de construção de sentido.
Responder a necessidades emergentes: acessibilidade, sustentabilidade, bem-estar, pertinência cultural.
Fomentar processos de co-criação que valorizem saberes diversos e gerem narrativas mais equilibradas, éticas e representativas.
Para nós, inovação não é ruptura: é uma transformação consciente, construída com responsabilidade, sensibilidade e diálogo.
Em 2026, queremos que a inovação seja um verbo ativo: aprender, ajustar, experimentar, colaborar.
3. Tecnologia: ampliar capacidades humanas sem substituí-las
A tecnologia está transformando o campo do patrimônio, e na I-PAL acreditamos que este é o momento de incorporá-la com critério, criatividade e responsabilidade. Não para substituir intérpretes, mas para expandir o que podemos realizar juntos.
A tecnologia pode:
Facilitar o design interpretativo com apoio de inteligência artificial.
Criar experiências imersivas que revelam o que não pode ser visto a olho nu.
Disponibilizar ferramentas de análise que nos ajudam a compreender melhor nossos públicos.
Ampliar a acessibilidade para visitantes com diferentes necessidades.
Partimos de um princípio simples: a tecnologia ganha verdadeiro valor quando enriquece a experiência humana.
Nosso papel é favorecer uma convivência harmoniosa entre o digital e a sensibilidade, a ética e a intencionalidade que enriquecem a interpretação.
Um enfoque para avançar como comunidade profissional
Esse enfoque para 2026 nos convida a perguntar:
Como a imaginação pode ampliar nossa criatividade e aguçar nosso olhar multissensorial?
Quais inovações podem tornar a interpretação mais pertinente e mais inclusiva?
De que maneira a tecnologia pode multiplicar nossas capacidades sem nos afastar de nossa identidade profissional?
Ao longo do ano, essas perguntas orientarão oficinas, debates, publicações, práticas colaborativas e espaços de aprendizagem entre colegas.
Nossa intenção é clara: cultivar uma interpretação do patrimônio criativa, ética, multissensorial e inclusiva, onde a sensibilidade humana conviva naturalmente com novas possibilidades tecnológicas.
Artigos de referência disponíveis na biblioteca da I-PAL.
Barsalou, L.W. (2008) – Grounded Cognition. Annual Review of Psychology
Fauconnier, G. & Turner, M. (2002) – The Way We Think. Basic Books
Kosslyn, S.M. (1994) – Image and Brain: The Resolution of the Imagery Debate. MIT Press
Artigos ou livros recomendados.
Falk, J.H. & Dierking, L.D. (2016) – The Museum Experience Revisited
Left Coast Press



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